Entrevista com Elio Carmo

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Élio Carmo conquistou vários títulos ao longo da sua carreira.

Ex-campeão de culturismo vive nova fase na sua vida.
Começou no futebol onde representou o Louletano, o Farense e o Quarteirense, mas as lesões obrigaram-no a terminar a carreira com apenas 20 anos. Ironia do destino, começou depois a dedicar-se ao culturismo e tornou-se num dos nomes mais prestigiados de sempre na modalidade em Portugal, tendo conquistado vários títulos. Élio Carmo é hoje um homem diferente, que pretende ensinar tudo o que aprendeu nos últimos 20 anos, tanto a nível de treino, como de alimentação e saúde, tendo aberto, recentemente um ginásio em Quarteira, que reflecte bem a sua nova forma de estar na vida.

Como é que o culturismo surgiu na sua vida?

Era jogador de futebol, sofri algumas lesões num joelho e fui operado várias vezes. Fui pela primeira vez a um ginásio quando tinha 20 anos, com um amigo holandês que treinava há muitos anos. Gostei e como vinha de uma operação, tinha uma atrofia muscular muito grande na perna, por isso, o meu objectivo era tentar conseguir o equilíbrio nas duas pernas. Ao final de três meses de treino, a minha perna estava boa, forte e fiquei impressionado com os resultados. Então, pensei que como já tinha sido operado várias vezes ao joelho ,o ginásio seria uma coisa boa para continuar. Quando me apaixono por algo, procuro sempre saber o máximo sobre isso, então fui às melhores livrarias de Faro e procurei tudo o que havia sobre a actividade, pois na altura não havia internet. Pedi também a todos os meus amigos para me enviarem livros e informação sobre treinos e tirei vários cursos, pois queria estar sempre no topo em relação ao conhecimento. Nunca sabemos tudo, estamos sempre a aprender.

E daí até entrar no culturismo de competição, o que aconteceu?

Sempre fui um indivíduo muito tímido, agora imagine bem o que foi necessário para subir a um palco de tanga e mostrar o corpo. Tive de libertar-me de uma série de preconceitos, pois vinha de uma infância atribulada, trazia um defeito no pé esquerdo e já tinha feito quatro operações ao joelho. No culturismo procura se chegar a um físico o mais perfeito possível e eu não o tinha. Tive de aprender a desenvolver mais harmonia, começando com aquilo que tinha, que era um corpo com muita falta de harmonia e muitas lesões. Por acaso, nunca tinha partilhado isto com ninguém…

Mesmo assim, decidiu participar em competições?

Sim, pois apesar de ser uma pessoa tímida, sempre fui muito competitivo, tinha uma grande fome de vencer, mas sem pisar ninguém, sempre com lealdade. Tinha dois anos de treino, quando as pessoas no ginásio me começaram a dizer que tinha um bom físico e que devia ir aos campeonatos em Lisboa. Entretanto, decorreu uma pequena competição no Algarve e aproveitei para participar. Não sabia nada, fui lá para ver e aprender e, mesmo assim, fiquei em 7º. No ano seguinte, motivado por essa experiência e porque me diziam que ainda estava melhor, participei no campeonato nacional e fiquei também em 7º lugar, e isso fez-me acreditar que tinha condições. Depois, fui novamente ao campeonato nacional e já consegui um 3º lugar. Entretanto, fiquei dois anos sem competir e, quando voltei, acabei mesmo por ganhar.

Como se sente hoje, olhando para trás e vendo que conquistou tantos títulos?

O culturismo de competição, como todas as paixões, cega-nos, e reconheço que já não sou o mesmo indivíduo que era quando tinha 20 anos. Durante duas décadas fui demasiado apaixonado por aquilo, o que me cegou para muitas outras coisas. Desde que abria os olhos até fecha-los, só pensava nos vários aspectos do treino, o que ia fazer, a intensidade, a minha alimentação, os nutrientes, enfim era algo que me absorvia de tal maneira que me esquecia dos demais. Nesse ponto não era saudável. É isso que quero ensinar hoje às pessoas. Todo o conhecimento que absorvi ao longo dos anos de nada serve se não conseguir passar a mensagem aos outros. Não fumo, não bebo e não consumo drogas, agora se me perguntar se tomava substâncias quando era atleta, respondo que sim, e hoje arrependo-me profundamente disso. O mundo, hoje, está cheio disto, no culturismo, no futebol, no ciclismo, em todo o lado. É contra isso que quero estar, essas substâncias não me tornaram um atleta nem uma pessoa melhor, pelo contrario, tornaram-me uma pessoa pior, cega por uma paixão que não me deixou amar o próximo. Estamos nesta vida para aprender a amar e a servir os outros, sem isso, não somos absolutamente nada.

Qual o título que lhe deu mais gosto em conquistar?

Houve vários e por diferentes motivos. Destaco o primeiro, porque tinha apenas cinco anos de treino e quando ganhei o campeonato nacional nem sabia o que era um anabolizante. Quando saí do palco, todos me deram os parabéns e elogiaram-me, inclusive os atletas com mais anos de treino. Perguntaram o que tomava e eu disse que era apenas uns batidos protéicos, vitaminas minerais e uns aminoácidos, nessa altura não sabia o que era um anabolizante. Isto prova que é possível conseguir grandes resultados sem essas substâncias. Claro que, a partir daí, quis experimentar, era jovem na altura e tinha curiosidade, Estas substãncias podem ter consequências terríveis na nossa saúde e provocar mazelas irreversíveis que, inclusivamente, podem levar à morte. Quando algum jovem me vem perguntar sobre isso, tento fazer com que eles não comecem a utilizar nenhuma substância. Se já o fazem, digo-lhes para que deixem de tomar, pois não aconselho ninguém a fazê-lo, nem os que competem.

Qual foi a sua última competição?

Foi o Campeonato da Europa de Budapeste, em 2004, onde conheci a minha esposa. Fiquei em 5º lugar, mas sei que não fiquei nos três primeiros porque eles dão muita primazia aos atletas da casa. Em 1º e 2º ficaram dois atletas húngaros e em 3º um espanhol, pois a Federação espanhola dá sempre um empurrãozinho. Eu fiquei em 5º lugar atrás de um suíço que, curiosamente, pensava que ele ia ficar em 1º e eu em 2º. Portanto, foi um 5º lugar saboroso e uma despedida muito bonita. Fiz muitos amigos, é isso que guardo cá dentro. Decidi que tinha chegado o momento de abandonar, pois achei que podia fazer muito mais pelos outros se deixasse de competir.


Para chegar à forma que o notabilizou, foram precisos muitos sacrifícios?

Nem queira imaginar. Para se conseguir aquele efeito do corpo seco, temos de fazer uma alimentação muito baixa em gorduras, tem de se saber a quantidade e o tipo de gorduras que se pode consumir por dia, a quantidade de proteínas, é preciso perder a gordura, preservando a massa muscular, o que é difícil. É preciso também “jogar” com os hidratos de carbono, em pequena quantidade só para manter os factores vitais a funcionar, e ter mais potássio do que sódio dentro do músculo. Para isso, reduzimos a quantidade de sal ao máximo, há quem beba água desmineralizada ou consuma só potássio em forma de comprimido, Procuramos ainda consumir alimentos ricos em potássio. A ultima semana antes da competição é fundamental. Se o atleta não fizer as coisas bem feitas nesta última semana, aparece com água debaixo da pele e sem o aspecto luzidio, seco, e isso é o suficiente para não ficar no 1º lugar.

jornal carteia, 2007-07-11

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